
(Santo Sepulcro, Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém, Israel)
Continuo viagem por entre o cardume de pessoas que segue em contra-mão. Perco-me com os diferentes cheiros, cores e credos que compõem Jerusalém. Mais tarde, já dentro da Igreja do Santo Sepulcro, quando toco a marca que se diz ser o "Centro da Terra", tudo se torna lógico: a Terra gravita sobre o seu centro e quanto mais próximo estamos desse ponto magnético, mais densa se torna a nuvem destes electrões humanos. Todos diferentes, todos numa imensa azáfama e hipercarregados de energia.
E é toda essa actividade que quase apaga o impacto religioso da cidade velha. Percorro a Via Sacra sem falhas e por ordem, cruzando-me com multidões de japoneses a tirarem fotos e a carregarem cruzes de fantochada; entro, por instantes, no Santo Sepulcro depois de ter estado 3 horas numa fila que se empurrava, acotevelava e vilipendiava a cada segundo; subo ao Monte do Calvário, controlado por uns brutos monges gregos ortodoxos, para ver de fugida o local onde Cristo foi cruxificado; e desvio-me de visitas guiadas à entrada dos jardins onde terá sido a última ceia. Tudo fica à distância de uma centena de passos e raros, muito raros, são os momentos em que nos sentimos sozinhos. Os fiéis matam qualquer experiência de fé que se queira ter, já que com tamanho frenezim a introspecção se torna impossível e apenas se sacia a fome de curiosidade. A de espírito remete-se para mais tarde, já no regresso a casa.
(continua...)

(Damascus Gate, Jerusalem)
A chegada a Jerusalém faz-se de mapa na mão, bem junto aos olhos, tentando perceber por qual dos quatro quarteirões da cidade velha vamos entrar. As hipóteses estão definidas, explicitamente divididas e bem claras: Arménio, Cristão, Judeu e Muçulmano. A sorte e predisposição para estas coisas leva-me ao mais complicado, estranho e movimentado: entrar em Jerusalém pelo quarteirão Muçulmano atravessando a Porta de Damasco. É um mar de gente ao berros em árabe e hebraico. É um jogo do empurra entre peles morenas de barba negra e perspontanda e peles brancas de penugem aloirada ou grisalha que vão tentando andar. A minha mochila pesa 20 kgs, tem o volume no limite e é dia de mercado. O calor aperta e entalado entre tanta gente que me grita aos ouvidos sinto-me a "começar bem". No chão, escapando por pouco a esta manada de humanos, vendem-se bolos secos, toranjas, laranjas, romãs, azeitonas e um mar de outros produtos que por cá a ASAE faz refém. A rua que se segue é ingreme e com tanta gente e pisada durante tantos e tantos anos é normal que seja de lage bem polida.
Estou onde tudo começou. Estou na Terra Santa, na cidade santa e quase tudo o que agora vi seria inconcebível para um jornal ocidental. Ali, nesta rua do Quarteirão Muçulmano, cruzam-se de olhos nos olhos, judeus com árabes, cristãos-ortodoxos com judeus ortodoxos e por entre si mulheres tapadas, destapadas, ocidentais, muçulmanas, e uma imensidão de outros povos apenas de visita. Todos negoceiam entre si e, embora berrem, todos se confrontam sem nunca se hostilizarem. Eu mudei a lente à máquina e com uma 300mm fui tirando fotografias. Em 30 metros percorridos, devo ter tirado uma centena de fotografias e que agora não consigo aqui postar. Não é grave, pois não ficamos por aqui...
(continua...)
E o que chove lá fora?
Quiosque da D.Web