
A propósito deste último post, em que a imagem espelha apenas um pouco da violência que se vive na Grécia, lembrei-me que a minha geração e a seguinte talvez não estejam preparadas para uma UE falível a este ponto:
Hoje de manhã, à minha frente, seguia um autocarro cheio de putos numa viagem de estudo. Ao contrário da rebaldaria nos bancos de trás e dos pacotes matutano a voar de um flanco para o outro do meu tempo, a maioria estava muito arrumadinha nos seus bancos. Presos às PSP2 e aos telemóveis nem se faziam ouvir cá fora. Para eles a crise ainda não lhes chegou aos ouvidos e ainda bem. Quando tinha a idade deles também andava absorto dos problemas do mundo.
Mas lembro-me de alguns detalhes que entretanto se modificaram: a poupança fazia com que o meu almoço viesse sempre cozido pelo termo e que as joelheiras fizessem parte das calças que tinha herdado do meu irmão mais velho. Ninguém andava na rua mascarado de Cristiano Ronaldo miniatura, primeiro porque o bom senso e gosto imperavam, mas sobretudo porque isso significava um custo extra para lá do que a mentalidade não consumista permitia.
Depois choveram os milhões e milhões da Europa e num abrir e fechar de olhos as mentalidades passaram para um consumismo desenfreado. Vivendo para além das suas posses, de um dia para o outro todos quiseram ser patrões: quantos saíram de fábricas - que tiveram de procurar mão-de-obra estrangeira - para abrirem um café ou outro tipo de serviço? Quantos passaram a comprar tudo o que viam para si e para os filhos com recurso a crédito dourado? Sentiam a necessidade de dar aquilo que não tinham tido sem perceberem que no fundo estavam a entrar na espiral da hipoteca que hoje vivemos.
O dinheiro chovia e sentiam as costas aquecidas pela União Europeia, mas quem ficou mal habituada foi a minha geração e a seguinte. Daí que diga que talvez não estejamos preparados para um eventual falhanço. Mas e se ela falhar?
PS- o resto não pode mesmo ser igual à grécia
Há uns quantos meses atrás, numa reunião com um grego em ele me confessava o estado para que a Grécia caminhava, comentei-lhe em tom de desabafo que muitas das suas angústias eram também as minhas enquanto português. Longe de pensar que viesse a ser crime equipararmo-nos à Grécia neste ou naquele aspecto - e espero que as agências de rating não me estejam a ler -, troquei com ele as minhas preocupações sobre o crescimento do Estado despesista e a fraca massa produtiva, sobre a terrível carga burocrática em que vivemos, sobre a complicada e survedoura política fiscal, sobre o futuro da dívida pública e, claro, sobre o que se ouvia dizer dos políticos no futebol e nos táxis.
Respondia-me ele que Portugal devia direccionar-se totalmente para o Turismo como única alternativa.
Hoje, segundo dois políticos alemães, a alternativa que resta à Grécia é tornar-se um protectorado germânico vendendo parte do seu território para exploração com fins turísiticos.
Não tendo feito essa aposta a seu tempo, agora outros a farão como contrapartida de salvar um país que não pode sair do Euro e que está totalmente dependente das acções e próximas decisões externas.
Portugal não poderá ser o próximo. Até porque não tem tantas ilhas.

E o que chove lá fora?
Quiosque da D.Web