Bem ao estilo do Síndrome de Estocolmo, em que a vítima de rapto se torna fã do seu sequestrador, Portugal segue vítima e admirador do corporativismo que foi enraizando na sociedade e de que se fez refém.
A bola de neve que nasce na mais simples Junta de Freguesia ou Câmara - vezes sem conta sequestradas por corporativos grupos desportivos ou de outro género, apenas por serem fonte de votos e influência - e que se vai formando por esses campos fora atingindo o expoente máximo em qualquer governo que tenha dirigido o país - que sucumbem, uns às mãos de Sindicatos, outros de grupos económicos, de partidos, ou até, de antigos colegas de Coimbra - faz manifestamente mal ao país, mas este parece gostar, tal é a teimosia com que alimenta os corporativistas.
Vem isto a propósito da frente que Mariano Gago abriu ao atacar as ordens profissionais e a quem com elas é conivente. Fê-lo e bem - mesmo muito bem! - embora possa a estar, como diz Marinho Pinto, a servir uma das classes mais corporativas de Portugal, a Universitária. Mas o simples facto de as ter metido à bulha e ter denunciado o problema que se arrasta há anos, é já uma semi-conquista.
Se já é mau termos um Estado omnipresente, pior é criar essas réplicas em miniatura - não eleitas por ninguém, não mandatadas por nenhum - para nos meandros das coisas irem criando o mundo à sua medida. Quando acabam com elas ou ganham coragem para lhes esvaziar poderes?

O emprego para a vida acabou. O curso que conduz a um emprego em específico, tal como ainda o conhecemos, também definha a cada ano. E isto assusta uma geração a quem obrigaram a atravessar o deserto da empregabilidade. Uma geração que pode estar perdida caso não entenda que não pode, nem deve, seguir os passos dos seus pais, ainda que estes os recomendem. Mas pensar, num momento em que o desemprego assombra cada esquina, em aumentar o grau de instabilidade, parece ser de loucos. Mas não é.

Agosto é o mês do emigra voltar a casa e rever os familiares e amigos. Mas o emigra mudou. E em vez de voltar em "ótomóvel" de marca alemã com galhardete do clube local no retrovisor e "naperón" da Ti Clotilde na chapeleira, entra em Portugal por meios aéreos com "troller Sam&SóNight" e muito mais discreto. Já não tem a pretensão de fazer uma casa nas Beiras com o resto dos azulejos da fábrica local que faliu - até porque se sentiria humilhado pelos projectos de José Sócrates - e nem sequer tem vontade de pôr um leãozinho de pedra a guardar-lhe o relvado e o menino que é incontinente desde tão tenra idade.
Já não sente essa vontade porque o emigra já não é o mesmo que, entre os anos 60 e 70, partia "prá França" . O emigra de hoje, para além de ser de outro estrato social e económico, é cada vez mais alguém que nada tem a provar perante os outros quando vai para o estrangeiro. Aquele que hoje parte, fá-lo porque o país não o conseguiu segurar e não porque o país não o conseguia vestir ou alimentar. É sinal que estamos melhor que há 30/40 anos, mas também é sinal que a nossa mão de obra mais qualificada e a nossa massa cinzenta buscam, cada vez mais, ir trabalhar para fora por não termos tecido empresarial que os segure por cá.
Ora um país que vê fugir os seus cérebros, que não produz braços técnicos - só os importa - e que tem uma elevada taxa de desemprego de licenciados, ainda não percebeu que tem um plano desfasado da realidade?
Em Agosto tenho cá - ainda que seja espalhados pelo país - grande parte dos meus amigos. A maioria, mais próxima, está emigrada: Suiça, Angola, Brasil, Bruxelas, Espanha, Inglaterra, EUA. A eles e aos outros como eles: Bienvenue à votre terra!
Há notícias que me devolvem a esperança nos dias cinzentos. Há notícias que me fazem acreditar que, passo a passo, Portugal irá convergir para uma realidade mais flexível, menos presa a fantasmas estatizantes e onde a possibilidade de escolha é garante de liberdade.
E quando essas notícias de liberdade definem o futuro da educação, aí fico com a certeza que a próxima geração, podendo escolher livremente a sua formação, poderá ser muito melhor que a minha. Os cursos de banda larga, nomeadamente as engenharias, foram um primeiro passo desempoeirado em resposta ao que o mercado e a realização pessoal vão exigindo.
O primeiro curso combinado entre diferentes áreas é mais que isso. É a possibilidade de à la carte a pessoa se formar e ficar responsável pelo seu futuro. De num registo lifelong learning ir adequando Minors às opções traçadas na sua vida profissional. Longe de imposições e limitações poderá autorealizar-se e ficar a depender sobretudo de si própria e das suas escolhas. É uma oportunidade para o cidadão crescer, para a sociedade amadurecer e ganhar espírito crítico, mas também para o Estado aliviar a sua responsabilidade sobre um tema para o qual nasceu quase cego e de mãos atadas.
Estivesse eu a entrar agora para a faculdade...
E o que chove lá fora?
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