Não sei quantas vezes lhe falei sem saber quem ele era. Não sei quantas histórias ouvi sobre si. Não sei sequer se devo confiar na sua versão, de que outrora fora um homem muito rico e que por solidão, aquando da morte da mãe, resolveu ocupar o seu tempo dizendo adeus às pessoas sem nada pedir em troca. Sei que se tornou num ícone de Lisboa e estou certo que em breve, dele, nascerá uma lenda. É desta massa de pessoas estranhas que elas nascem.
Sei que no principio gozei com ele, quando era mais novo. Que lhe buzinei e lhe disse adeus em tom de troça adolescente. Mas também sei que a cada cabelo que fui perdendo, fui mudando - nem sei porquê - o tom em que lhe falava. Primeiro com timidez - já não tinha idade para gozar com pessoas estranhas -. Depois com respeito - tinha chegado à idade em que percebi que cada um é feliz como quer -. E por fim com amizade - tinha chegado o tempo em que me habituara a ele -.
Ao que parece, João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, morreu ontem. E levou com ele alguma da mística de Lisboa.
PS - Soube agora que ia ao cinema todos os domingos e que tinha um blogue onde desejou Feliz Natal a todos, "muito embora fosse cedo".

Michael Bublé não foi contratado para vir defender a abertura dos hipermercados ao domingo, nem para atacar o comércio tradicional. Mas a verdade é que nesse dia da semana, a cidade, que tem tempo para ser apreciada, se encontra de costas viradas e portas trancadas para quem o quer fazer, remetendo todo o pulsar lisboeta para esses caixotes com atmosfera controlada e espaços bem definidos. E o centro transforma-se num parque de diversões abandonado, enquanto que os shoppings se transformam numa selva de fragrâncias misturadas que irritam qualquer mucosa nasal.
Perante isto pouco mais há que pensar ou regulamentar. Lisboa só sobrevive se a viverem.

É perfeitamente normal o que está a acontecer em Lisboa. Tantos dias seguidos de chuvadas intensas, maremotos do Tejo, ventos ciclónicos, inúmeros sem abrigo a fazer as suas necessidades nas ruas, milhares de desastres de camiões da Água do Luso e inestimáveis gastos supérfluos de todos os Lisboetas no banho da manhã só podia dar nisto. A CML não deve ter culpa nenhuma...
A personagem era tipicamente lisboeta. Deitado na marquesa do "psicólogo" Bruno Nogueira, os bigodes que falavam para a televisão, interrompidos pelos tiques que o álcool foi criando, deitavam cá para fora um dos estereótipos do macho de Lisboa.
Sim, porque no Ribatejo e Alentejo há Marialvas, mas por Lisboa há uma espécie não classificada que vive escondida na Madragoa, Alfama e Castelo e que, embebida em vinho carrascão, tenta esquecer aquilo que por infelicidade nunca conseguiu ser: um verdadeiro filho da mãe.
Eu explico: dizia o tal lisboeta que apanhava da mulher sempre que chegava a casa. Que levava verdadeiras sovas. E que já não conseguia "levantá-lo", mas o que gostava na vida era que lhe trocassem a mulher de quarenta e tal anos por duas de vinte. Ainda que lhe batessem também.
Para este senhor, vítima de violência doméstica e de morte neuronal, a felicidade e o apogeu do homem atinge-se nos antípodas da realidade que conhece, ou seja, quando é ele a diminuir, de preferência, uma "gajé boa comó milho", que não envelhece e que o adora a cada berlaitada que leva. E que quando o vê, entre outros machos lá na tasca, vem submissamente perguntar o que quer ele para jantar, esperando depois levar o apalpão da praxe perante a plateia de amigos. E nada disso a apoquenta, pois sabe que tem em casa um tigre na cama com a glande mais proeminente que alguma vez a humanidade viu e que só isso lhe basta para compensar os desvarios do latino alfacinha.
Este é o sonho dele. Como não o cumpre, nem em 1%, afoga-se no mosto fermentado do tinto. E como ele há ainda outros tantos que também se dizem homens.
Em frente ao Instituto de Medicina Tropical caiu um aguaceiro mediterrânico mas o resultado foi um autêntico Amazonas, com a água a tapar os pneus dos carros.
António Costa põe a hipótese de avançar com uma nova empresa pública de saneamento para Lisboa.
Que dirá Mendes Bota de António Costa agora que ele se vai mudar para o Intendente?

Agosto teve uma 2ª circular arejada, como sempre. Livre de mulheres de madeixas que já de si não sabendo guiar, ainda se preocupam em desembaraçar o cabelo fio a fio pela manhã. Livre de pessoas azelhas que só sabem mudar de faixa quando estão paradas e perpendiculares ao rumo que pretendem seguir, em vez de irem lentamente e em diagonal entrando para onde querem. Livre de seres adormecidos de banho mal tomado e ramelas nos olhos que vão deixando os carros da frente andar, andar e andar até terem uma distância de segurança de quase 50 metros. Livre de pessoas que de olhos no horizonte repetem para si mesmas "não o estou a ver! não o estou a ver!" e não deixam ninguém entrar na sua faixa, não vá esse milésimo de segundo comprometer-lhes a hora de entrada no escritório. Livre de beijinhos matinais entre carroçarias automóvel que bloqueiam por completo a maior artéria de Lisboa.
Há um mês que não sofria com o trânsito e o meu fígado estava quase curado. Não podiam ter ficado junto com os vossos carros pelos algarves?
Para quem não acompanhou o processo, fica a ideia de que tudo corria bem até ao dia em que um invejoso resolveu meter-se ao barulho e causar alguma entropia. Ora, Portugal, que é um país de características pouco dadas à celeridade e eficiência, vendo-se com uma embrulhada destas por resolver, e após uns meses de acesa polémica, de bitaites bairristas desnecessários, de "vai pra cima! Não, vai para baixo!" e outras peripécias de circo, fez o que sabe melhor: deitou tudo por terra! Que é precisamente o que não se pretende numa prova de aviões.

Experimentem andar por Lisboa por esta altura e digam-me lá se não se sentem capazes de apresentar uma reclamação ao criador de tão bela e chata árvore: os Plátanos! Quem os inventou devia ser obrigado a limpar as ruas, a sacudir-me as camisolas, a lavar-me o carro, diariamente, e a assoar-me o nariz. Lisboa parece a capital da neve amarela em pó. Ficando especialmente atraente quando lhe dá o vento no sentido dos ponteiros do relógio.
Já repararam que despiram, finalmente, a Duque de Ávila dos tapumes que lá estavam há uma eternidade? Acredito que haja por aí muitas crianças a pensar que aquilo era mesmo assim...
Mas é verdade, sairam.E eu hoje no trânsito dei por mim a olhar para a avenida como se de novidade se tratasse. O que me levou a reparar num detalhe daquela e de outras avenidas alfacinhas.
Quantos estilos diferentes de arquitectura temos numa mesma rua? Quantas épocas diferentes se assinalam numa avenida como a Duque de Ávila ou a da República?
Prédios típicos de Estado-Novo a ombrear outros ao estilo art nouveau (não pensar que é o primo francês do primeiro) ao mesmo tempo que aqui e ali surgem semeados uns quantos escritórios modernaços de alumínio ou de vidro. Prédios das décadas de 20, de 40, de 60, dos anos 70, 80, 90 e à velocidade que isto anda qualquer dia diferenciam-se pelos anos!
Apesar de não ser nada de muito chocante, a verdade é que fica a ideia que tanta diversidade só se dá porque aqui e ali vão existindo buracos resultantes de antigos prédios devolutos. Não há uma homegeneidade como se vê noutras capitais europeias o que me leva a pensar que sempre tivemos dificuldades e estabelecemos entraves à manutenção imobiliária. Leis de arredamento erradas, falta de iniciativa, de vontade e de possibilidades privadas, falta de apoios camarários e de programas exequíveis, tudo levou a que Lisboa tenha caminhado e continue ainda na senda de se tornar numa manta de retalhos...Bonita, é verdade. Mas não poderia sê-lo mais?
E o que chove lá fora?
Quiosque da D.Web