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República do Caústico

O Senhor do Adeus

11.11.10, João Maria Condeixa

Não sei quantas vezes lhe falei sem saber quem ele era. Não sei quantas histórias ouvi sobre si. Não sei sequer se devo confiar na sua versão, de que outrora fora um homem muito rico e que por solidão, aquando da morte da mãe, resolveu ocupar o seu tempo dizendo adeus às pessoas sem nada pedir em troca. Sei que se tornou num ícone de Lisboa e estou certo que em breve, dele, nascerá uma lenda. É desta massa de pessoas estranhas que elas nascem.

 

Sei que no principio gozei com ele, quando era mais novo. Que lhe buzinei e lhe disse adeus em tom de troça adolescente. Mas também sei que a cada cabelo que fui perdendo, fui mudando - nem sei porquê - o tom em que lhe falava. Primeiro com timidez - já não tinha idade para gozar com pessoas estranhas -. Depois com respeito - tinha chegado à idade em que percebi que cada um é feliz como quer -. E por fim com amizade - tinha chegado o tempo em que me habituara a ele -.

 

Ao que parece, João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, morreu ontem. E levou com ele alguma da mística de Lisboa.

 

PS - Soube agora que ia ao cinema todos os domingos e que tinha um blogue onde desejou Feliz Natal a todos, "muito embora fosse cedo".