Sexta-feira, 19 de Março de 2010
por João Maria Condeixa, em 19/3/10

Refém de um magnetismo indomável, há anos que a minha vontade tinha traçado Auschwitz como destino. E foi apenas com ela, um iPod e um depósito cheio que saí de Praga a meio da tarde e me dirigi ainda mais para Leste.

 

texto publicado no passado sábado na revista "Nós", do jornal i.

 


publicado por João Maria Condeixa às 11:00
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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 22/2/10
 Bloco 11 (II)

A descida até ao Inferno de Dante em Auschwitz faz-se pelas escadas do bloco 11. Pelos degraus estreitos e gastos agarro-me a um corrimão carcomido, já sem tinta e desço. Calco as minhas impressões digitais sobre as daqueles que desceram àquelas caves com destinos tão diferentes do meu: eu viria de lá de baixo com vida. A maioria terá lá ficado para sempre.

As catacumbas do bloco 11 são em formato de labirinto e o tecto fica a uns 20 centímetros da minha respiração. Mas a claustrofobia não mata já ali. Primeiro há que passar por celas minúsculas onde ficavam dezenas de ossos com vida à espera que lhes ditassem o destino. Uma das celas, a única aberta ao público, sem se mexer ou dizer uma palavra, muda-me por completo: dentro daquele bunker, onde o sol não chega, a terra nos aperta e o Inferno teve residência durante tantos anos, um gigantesco círio queima o mesmo oxigénio de 1945. Deixado por João Paulo II quase que me obriga a ajoelhar e a soltar a pergunta que já trazia presa de há tantos metros e horas atrás. Onde esteve Deus durante todo aquele tempo? Remoí as entranhas de católico praticante e tirei-a a ferros. E não recebendo resposta, deixei cair uma lágrima, sequei o nariz e segui viagem com um espaço por ocupar.

Viro à direita naquele labirinto e entro numa sala que não vem nos filmes...

(continua..)


publicado por João Maria Condeixa às 22:49
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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 18/2/10

Bloco 11

 

Saí da última sala do bloco 10 tentando reconfortar a alma com imagens felizes da minha infância. Mas a cada uma que via, mais a vergonha me entristecia, pelo que resolvi arrumar o assunto com um punhado de ar fresco. Cá fora seguíamos viagem para o bloco 11. Cada um a seu ritmo lá entrámos num pátio de terra batida cercado por sólidos muros de tijolo. Ao fundo do pátio, do outro lado, a parede que amparara tantas mortes quanto balas tinham sido ali desperdiçadas: "The Death Wall". Aquele painel de madeiras e estopa criado propositadamente para receber o sangue e a pólvora,  vira muitos entregarem-se ao alívio perante esquadrões de fuzilamento. Ao seu lado, ainda erguidos na vertical, os postes que terão sustido prisioneiros que ali antecipavam a sua partida à torreira do Sol, não chegando sequer a ser alvo de balas, tal era o seu esgotamento físico.

Mas ali ao ar livre, pelo menos, respirava-se. E não contente com isso a minha guia levou-me para dentro.

No corredor de entrada do bloco 11 fiadas de fotografias de um lado e outro recebem cada um que lá chega. São ínumeros prisioneiros, incontáveis perfis, que de uniforme às riscas nos dão as boas-vindas. Como se isso fosse possível. Por baixo de cada um, a data de chegada e a data de morte. Ao contrário do que Hollywood nos habituou, ali não houve lugar para heróis, nem Homens de Aço. Média de esperança de vida: 2 meses.Um corredor enorme cheio de pessoas expostas e nem um se afasta muito desses dois meses de pesadelo. Sinal que o uniforme que vestiam era à prova de insultos, humilhações, xenofobia, racismo, torturas e outros devaneios, mas não à prova de bala, à prova de fome ou de doenças. Por ali sucumbiram milhares arrastando pesarosa e ruidosamente os ossos. Já eu, passava pelo corredor sem sequer me ouvir. E assim segui, devagar, memorizando cada um ali presente, até chegar às caves de Dante do bloco 11...

(continua)


publicado por João Maria Condeixa às 18:24
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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 8/2/10

 

Bloco 10 (II)

Ainda com a imagem daqueles prisioneiros que, numa espécie de canibalismo imposto, a tiritar de frio se enrolavam nos amigos ou familiares, dirijo-me a outra sala e afasto-me daquela rebuscada dança macabra.

Mas na sala onde entro o choque recebe-nos à porta. Do lado diametralmente oposto fitam-me milhares de crianças a serem descarregadas dos vagões numa imensa fotografia a preto e branco que acaba apenas porque a parede assim o impôs. A olharem com desespero para a sua passividade infantil vemos as respectivas mães tentando, num berro que agora não se ouve, libertá-las da fábrica da morte.

Esta é a sala a que normalmente chamaríamos "sala dos brinquedos", não fosse a restante envolvente. É ali que estão as crianças pequenas, os bebés, as bonecas, as rocas e outros objectos que são familiares a qualquer credo que ali entre. Mas, nunca, numa sala onde se respira a tenra idade, me tinha dado para chorar.A imagem é demasiado forte e faz mal!

Uma das bonecas de cerâmica de olhos azuis e faces rosadas exposta na mesa de vitrine tem a cabeça desfeita em 4 pedaços. Olha para nós, mas tudo o que consegui ver foi os olhos da criança que para lá a terá levado. Ao seu lado, uns sapatinhos que normalmente agarramos com a delicadeza de dois dedos e que por aquelas paragens terão sido severamente maltratados.Ali quase tudo é em formato pequeno. Até a nossa própria alma. Grande, só a imensa bola que me cresceu no estômago e que, de composição desconhecida, me faz emprenhar de ansiedade sempre que à sala volto.

Pelas paredes, ao nível dos olhos, casaquinhos de lã amarelados pelos anos, contrastam com as fotografias que estão expostas mais acima de rapazes e raparigas que, de pijamas às riscas negras e brancas, espelham o quão insuportável também foi a vida naquelas idades. Em salas destas, cheias de crianças, vêem-se sorrisos. Ali nem um. O meu que me costuma acompanhar por todo o lado ficara lá fora ao portão.

(continua)

 


publicado por João Maria Condeixa às 18:00
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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 4/2/10

Bloco 10

Desço as escadas do primeiro bloco e dirijo-me para a saída. Olho sobre o ombro com vontade de confirmar que nenhum dos que atrás me seguem têm riscas em fazenda grosseira e acabo por ver que trazem tatuada na cara a mesma amargura desbotada que eu. Lá fora um grupo de militares da força aérea Israelita fecha-se em círculo. Inspiro sôfregamente até bater no resto da ansiedade que ficara no diafragma e avanço um pouco mais. Não lhes podia mostrar que não ficara indiferente ao primeiro dos blocos, aquele que serve apenas de apresentação. Fito-os nos olhos para lhes roubar a coragem e reparo que aqueles homens, que usavam uniformes já gastos, tinham nas rugas lágrimas de crianças pequenas. Deixei o orgulho de lado e fui à procura do que viesse já sem me interessar com defesas rídiculas.

 

Entro no próximo bloco. O bloco 10, onde Mengele fez a maioria das suas experiências mais macabras. Já nada resta dele. Apenas uma foto sua a preto e branco entre um grupo de crianças que escolhera na rampa de Birkenau sabe-se lá com que intenção. Nada do que agora ali é exposto lhe pertence, mas eu olho para ele e ainda o vejo a sorrir. Aqui as vitrines também estão cheias. Panelas e utensílios de cozinha utilizados pelo prisioneiros e que eram na maior parte das vezes a sua única riqueza e moeda de troca. Pentes. Milhares de pentes. Uma vitrine repleta de latas vazias de Zyklon B, o gás utilizado nas câmaras de gás e cujo logotipo" Degesch" eu tão bem conheço de Portugal. Na outra divisão as pessoas demoram-se mais: uma tonelada de cabelo numa mancha negra imensa enchem uma das maiores vitrines ali patentes. Milhares de pessoas ali naqueles biliões de fios de cabelo. Das amostras dali retiradas todas acusaram resíduos de Zyklon B. Aqueles cabelos tinham resisitido até ao último momento, até ao último segundo da "solução final" onde eram previamente rapados antes dos seus respectivos corpos irem a banhos.

Ao lado dessa vitrine, uma outra mais pequena com um tear e uma manta. O tear de aspecto cansado servira para tecer, daqueles e de outros cabelos, mantas. Mantas pobres e fibrosas de milhares de milhões de cabelo humano. Mantas que eram depois distribuídas em Birkenau pelos prisioneiros que de frio tiritavam e que jamais poderiam imaginar no que se iriam enrolar. 

O ser humano não consegue ser assim tão macabro ou pelo menos assim pensava eu...

(continua)


publicado por João Maria Condeixa às 14:52
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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 2/2/10

Arbeit  Macht Frei

A manhã rasgou ansiosa e o Sol de Outono tirou-me cedo do carro. Espreguicei-me o mais que pude como se pudesse adivinhar que dentro do campo iria mingar a cada passo. Birkenau ficaria para mais tarde. Havia que começar pelo princípio: Auschwitz I.

Deixei-me acumular a um pequeno grupo e foi com eles que dei os primeiros passos pela  passadeira de gravilha. A receber-me de braços abertos estava o portão que me prometia libertar pelo trabalho. Mas eu era turista e não tencionava mexer um músculo que fosse, à excepção do cardíaco que teimava em se fazer ouvir. Talvez por isto tenha ficado seu cárcere.

 

Segui em frente, mas logo nos primeiros metros fui separado do meu grupo. Não por Mengele, o Anjo da Morte, mas por um silêncio que não percebi onde era fabricado. A partir daí cada um de nós, por muito junto que estivéssemos, visitaria o campo sozinho.

Logo no primeiro bloco a ansiedade deixa de ser engolida e passa a entrar sem convite. E será ela que a partir daí nos guiará. Assim como assim, a minha guia insistia em falar  cada vez mais baixo e os meus guide-phones pareciam estar demasiado alto. Não havia já meio termo para nada.

Pelas vitrines, cartas manuscritas entre oficiais e listagens da "mercadoria" chegada. Um rol infindável de nomes sem rosto. Numa das salas um mapa a cobrir uma parede completa mostrava como a Europa convergira para um só sentido: Auschwitz. Ali estava traçada a imensa teia férrea que capturara mais de um milhão de pessoas que sem se aperceberem  acabariam por protagonizar a "solução final".

E foi assim, de sala em sala, de bloco em bloco, que fui vendo as montras mais tristes. Amontoados de óculos de arame, milhares de sapatos sem dono, sem número. Uns abandonados pelos pés ainda em pequenos, outros retirados dos corpos sem vida. Pilhas de malas riscadas com giz. Às centenas, com datas. Com nomes. À minha frente, embasbacado na vitrine embaciada pela respiração, estancara um turista em busca de alguém.

E é nestas alturas que a alma apertada cospe a ansiedade e os olhos humedecem. Simples idiotas que tão pouco resistem a uma visita. E eu que não buscava ninguém, já nem a mim me encontrava.

(continua..)

 

 


publicado por João Maria Condeixa às 18:14
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Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 1/2/10

A chegada

Já de costas para a floresta e de volta às estradas de pez negro sigo as placas que em Polaco dizem Oświęcim. O nevoeiro vai sendo lentamente atropelado pelo meu carro e não me deixa seguir mais depressa. Ao fundo, as luzes amarelas distorcidas pelo frio e pela bruma são o único sinal de que Auschwitz está já ali.

Vejo a primeira torre do campo e fico estarrecido, longe de perceber que o que me estava guardado para a manhã seguinte era infinitamente mais marcante. Sigo estrada fora um pouco mais e chego ao cenário que Hollywood teimou em não eufemizar: a entrada de Birkenau (Death Gate).  O impiedoso iPod passava agora a banda sonora do "Empire of the Sun" submetendo-me a um cruel teste à resistência humana. A curiosidade fez com que não cedesse aos seus intentos e feito bravo arregalei os olhos para ver mais e mais longe. Os tijolos, os ferros, o portão, os carris lá ao fundo, o frio, o silêncio de hoje, gritos de ontem, existem e são palpáveis. Sem sequer me aperceber engoli a primeira miligrama de ansiedade que iria pernoitar comigo às portas do mundo inferior. Rodei a chave do carro e virei-me para o outro lado até ao dia nascer.

(continua)


publicado por João Maria Condeixa às 18:48
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Domingo, 31 de Janeiro de 2010
por João Maria Condeixa, em 31/1/10

  O caminho  

Ainda que nada, nem ninguém, consiga explicar o magnetismo, há anos que o destino estava bem marcado na minha vontade. E foi apenas com ela, um iPod e o depósito cheio que saí de Praga a meio da tarde e me dirigi ainda mais para Leste. 

Para trás ficara um mapa que só nos faz falta quando nos encontramos perdidos, já noite cerrada, algures na fronteira entre a República Checa e a Polónia. Fora da auto-estrada que fora cortada sem aviso prévio e depois de itinerários principais, os caminhos de cabras semi-asfaltados são a única via para nenhures. E não há vivalma que àquelas horas nos indique que a floresta negra, que se vai erguendo diante dos nossos olhos, tem limite conhecido. 

A vegetação vai-se adensando, as casas desaparecendo, as luzes evaporam e só a Lua permanece pendurada no tecto. Os ursos e lobos, esses, nem se mostram, assustados que ficam com a presença estranha no seu reino. Durante quilómetros a estrada vai-se afunilando e a gasolina também. Mas o ponto de retorno já fora passado há muito e apenas para a frente restava a solução. Nesses momentos, a arma contra o desespero humano reside numa gota de racionalismo puro que nos empurra para diante e não nos deixa acobardar. Mas "Estupidez" também serviria como sinónimo.

Sumido no fim do mundo prossegui a marcha até um muro de granito,  de aspecto soviético, que brotando do chão me dava a ler "Wodzisław Śląski". De tão aliviado que estava por ter visto obra humana, nem sequer me preocupei com a tradução e tão pouco me lembrei que aquela inscrição talvez me quisesse alertar que o mundo acabava ali. Mas não, o mundo acabava uns quilómetros mais à frente. (continua...)

 

 (Wodzisław Śląski)

 


publicado por João Maria Condeixa às 18:50
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Real Constituição da República do Cáustico
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